quarta-feira, 25 de novembro de 2009 





Gastos Públicos: a União já comprou cachaças, minhocas, chicletes...

É costume no fim de ano a realização de retrospectivas. Assim sendo, o Contas Abertas reuniu alguns documentos oficiais, no mínimo curiosos, casualmente encontrados no SIAFI – Sistema Integrado de Administração Financeira da Secretaria do Tesouro Nacional-STN, provenientes de vários órgãos da União, nos últimos dez anos.

Você, caro leitor, já imaginou a União comprando 24 garrafas de cachaça ou 47 toneladas de minhocas!? Pois, então, acredite nessa possibilidade... As cachaças foram compradas em 1995, pelo Comando Militar do Leste. As minhocas, adubaram os jardins do Superior Tribunal de Justiça em Brasília

As despesas são consideradas legais, ainda que possamos questioná-las quanto à prioridade. É certo que, mesmo com a eliminação desses dispêndios, não influenciaríamos no superávit fiscal ou na realização de importantes ações sociais. Mas, tais gastos causam espanto e demonstram que ainda existem "gorduras" no setor público.

Os gastos apresentados aconteceram em vários anos, de 1995 a 2005, portanto em diversos governos. Na prática ocorreram porque algum burocrata, amparado por definições abrangentes dos "programas" e "ações governamentais" julgou-se no direito de adquirir esses itens, supostamente em favor da operacionalização do serviço público.

Em 1995, dados oficiais do governo mostravam uso de verba do Fundo Social de Emergência para a compra de goiabada cascão e para pagamento de frete para o transporte de cristais oferecidos como presente ao presidente Bill Clinton (USA). Tais fatos mostraram que as despesas não eram sociais, nem de emergência. As denúncias levaram o governo a mudar o nome do Fundo. Os empenhos referentes a essas transações estão abaixo:




O Contas Abertas selecionou ainda outras "pérolas" para divertir os internautas nesses dias festivos. Vejam alguns exemplos de empenhos orçamentários oficiais clicando no item desejado:

ITEM

ÓRGÃO ADQUIRENTE

DATA DO EMPENHO

cachaça, suco de tomate, cerveja, whisky, ovo de codorna, bacon fatiado e leite condensado

Comando do Comando Militar do Leste

18/ago/1995

chiclete

Comando Aéreo de Treinamento

06/fev/1995

humus de minhoca

Superior Tribunal de Justiça

14/ago/1996

carroussel e gangorra de pranchas

Superior Tribunal de Justiça

02/jun/1997

pão de mel ao leite

Presidência da República

02/jan/1997

copo de cristal e xícara em porcelana

Tribunal de Contas da União

06/nov/1998

ração (postura) para os cisnes

Ministério das Relações Exteriores

28/jan/1999

charutos

Cerimonial

25/jun/1999

licor de uisque francês

Cerimonial

06/jun/2000

curso de aperfeiçoamento para o tratamento de piscinas

Presidência da República

15/set/2000

lanche dos magistrados

Justiça Federal – RJ

18/set/2000

tela anti-insetos

Supremo Tribunal Federal

25/set/2001

preservativos (masculino e feminino)

Secretaria do Superior Tribunal de Justiça

22/mai/2001

banheiro químico (locação)

Presidência da República

03/nov/2005



Nos últimos anos, o Tribunal de Contas da União (TCU), vem ampliando seu raio de atuação, fiscalizando não apenas a legalidade do gasto como também a sua qualidade ou prioridade.

Recentemente o TCU condenou os desvios de utilização da CIDE – Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico – aquela que pagamos quando abastecemos os nossos veículos a gasolina ou a díesel – que tem sido aplicada em várias finalidades diferentes da sua destinação legal. Recursos exclusivamente destinados à infra-estrutura de transportes, a projetos ambientais e para subsídiar preços, estão sendo empregados em pagamentos de pessoal, xícaras, camisetas para coral, diárias, almoço de conselheiros, copeiragem, festividades e homenagens, aquisição de porteiro eletrônico, recarga de extintores, etc.

Um fato positivo é que o Sistema Integrado de Administração Financeira (SIAFI), registra todas as "compras", permitindo que as mais estranhas sejam descobertas e eventualmente questionadas. O fato negativo é que, já há alguns anos, certos burocratas vem omitindo, no SIAFI, a descrição minuciosa dos itens adquiridos. A Controladoria Geral da União (CGU) e o TCU devem evitar que isso ocorra, impedindo a desejada transparência. Ao que se saiba, ninguém nos últimos anos foi punido, quer por comprar indevidamente, quer por esconder o que comprou.

Os exemplos apresentados pelo Contas Abertas são de certa forma anedóticos e com valores insignificantes frente aos dispêndios globais da União. Os ordenadores de despesa, porém, devem ficar atentos pois o Contas Abertas estará fiscalizando esses lançamentos esdrúxulos, com a expectativa de contribuir para o necessário aprimoramento da qualidade e da prioridade dos gastos públicos.

Fátima Xavier
Do Contas Abertas


      26/12/2005
       
     
Envie esta notícia a um amigo
Enviar para um amigo
Alerta de notícias
Receber newsletter
Versão para impressão
Imprimir
Página Inicial
Página de Notícias
 
Informativo


Workshops e Palestras