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Metade da população do Maranhão recebe Bolsa Família
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Não é novidade para praticamente ninguém que a maioria
dos brasileiros moradores do Norte e Nordeste do país vive em piores
condições de vida do que o verificado nas outras regiões. O Maranhão, por
exemplo, que tem uma ligação política histórica com a família Sarney, tem alguns
dos piores indicadores sociais do Brasil. Talvez por esse motivo o
estado seja dono do maior número de pessoas contempladas com o
programa Bolsa Família - carro-chefe social do governo Lula - em relação a sua
população global. São mais de 753 mil famílias maranhenses contempladas com o
benefício, quase 3,2 milhões de pessoas, ou seja, exatamente 50% da população
total do estado (6,3 milhões).
 Os dados do programa são do Ministério do Desenvolvimento
Social e Combate à Fome (MDS) e referem-se ao período de fevereiro deste ano. O
segundo estado com maior quantidade de pessoas contempladas proporcionalmente ao
tamanho da população local é o Piauí, também no Nordeste. Lá, 48% (cerca de 1,5
milhão) dos 3,1 milhões de habitantes recebem recursos do programa. Em seguida
aparece Alagoas, ainda no Nordeste, com cerca de 47% da população beneficiada
pelo programa.
Proporcionalmente, o Distrito Federal é a unidade da
federação que menos tem pessoas recebendo o benefício. Apenas 6% da população
total, que é de aproximadamente 2,6 milhões, é contemplada com o Bolsa Família.
Santa Catarina e São Paulo, o estado mais rico do país, chegam perto do índice
do DF, com 9% e 10% da população total beneficiada, respectivamente. No total,
quase 25% da população brasileira é beneficiada pelo Bolsa Família. Em média, as
famílias beneficiadas, que atualmente somam 11,3 milhões, possuem quatro pessoas
cada (veja
tabela).
Analice Pereira Almeida, moradora de Estreito, cidade do
Maranhão que tem uma população de pouco mais de 26 mil habitantes - sendo
56% pobre - já recebeu o Bolsa Família. Ela, com 53 anos e avó de Gabriel
Almeida, de 11 anos, diz que os R$ 75 mensais recebidos “quebravam um bom galho”
na composição da renda da família. “Eu só usava o dinheiro em coisas
relacionadas ao dia a dia do meu neto, principalmente com material escolar. O
que sobrava a gente comprava de lanche para ele. Eu nunca usei o dinheiro para
mim”, afirma.
Hoje, Analice diz que não sabe porque parou de receber o
Bolsa Família. “Há cerca de um ano paramos de receber o benefício. Não sei o que
houve. Mas como o cartão não está no meu nome e sim no do meu filho [Pedro, pai
de Gabriel], ainda não fui saber o motivo”, conta.
Já Elânia da Silva
Soares Oliveira, 28 anos, mãe de três filhos, empregada doméstica, também
moradora de Estreito, recebe o Bolsa Família há cerca de dois anos. Para ela, os
R$ 60 recebidos ajudam nas despesas da casa. No entanto, Elânia diz que poderia
ganhar mais. “O dinheiro é bom, dá para levar, mas poderia ser mais por ser três
filhos. Dá só R$ 20 pra cada”. O marido dela está desempregado, mas os seus três
filhos, com idades entre quatro e nove anos, frequentam a escola e têm
acompanhamento de saúde local.
O especialista em políticas sociais da
Universidade de Brasília (UnB) Ricardo Pacheco acredita que o Bolsa Família é um
programa “muito importante” para começar a mudar a realidade do país. Segundo
Pacheco, as contrapartidas oferecidas pelo programa nas áreas de educação e
saúde fazem com que as crianças e jovens das famílias contempladas tenham um
futuro melhor do que o presente vivido pelos pais. “O programa estabelece portas
de saída para que os filhos beneficiados tenham um futuro melhor do que o do
seus pais. A renda não é por si só tudo do programa”, afirma.
Para o especialista, não é nenhuma surpresa que o
Maranhão seja o estado que tenha proporcionalmente o maior número de famílias
inscritas no programa, pois, segundo ele, o estado apresenta um dos piores
indicadores sociais do país. “De maneira geral, os estados do Nordeste
apresentam a miséria mais flagrante do Brasil. Isso é consequência de uma
dominação coronelista política de muito tempo, que sempre excluiu segmentos da
população mais desfavorecidos. O Estado nunca teve interesse nessas pessoas”,
critica.
Pacheco lembra que para as pessoas que passam fome, não é
possível esperar. “O Bolsa Família é uma espécie de salvação momentânea para as
pessoas sonharem e terem esperança de um futuro melhor. O sujeito que não sabe o
que comer não tem nenhuma condição básica de vida, que inclui educação, moradia,
saúde, etc.”, conclui.
95% do total de famílias maranhenses com
perfil são atendidas
Procurado pelo Contas
Abertas para se manifestar a respeito da quantidade de beneficiados no
Maranhão, o MDS informou que a quantidade de famílias atendidas pelo Bolsa
Família é definida por estimativa de pobreza calculada pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com a assessoria de imprensa da
pasta, dados atualizados em abril de 2009 mostram que o Maranhão tem 833.084
famílias que atendem ao critério, ou seja, possuem renda per capita mensal por
integrante de até R$ 137, e podem ser incluídas no programa no pagamento em
julho
Segundo o ministério, 791.449 maranhenses estão recebendo
atualmente benefícios no total de R$ 75,5 milhões. “Esse atendimento significa
95% do total de famílias que se enquadram no perfil no estado. O índice é
considerado um bom atendimento, mesmo porque todo mês o número total de famílias
que recebem o programa muda. Umas entram e outras deixam o programa”, esclarece
a assessoria.
Sobre a importância do programa Bolsa Família na vida dos
beneficiados e da economia local, principalmente em estados pobres como o
Maranhão, a assessoria afirmou que “pesquisas mostram que as famílias gastam os
recursos do Bolsa Família no próprio município e no próprio bairro”. De acordo
com o ministério, isso dinamiza a economia local, gera emprego para as pessoas
que moram na localidade e mais impostos para a prefeitura.
“São famílias
que por suas condições não conseguem guardar o dinheiro, com isso os recursos do
Bolsa Família são gastos principalmente com alimentação, roupas, materiais
escolares e remédios, ao longo do próprio mês do recebimento. Em municípios
pequenos, os impactos são ainda maiores”, concluiu a assessoria. Quanto a um
possível reajuste do beneficio cogitado para este ano, a assessoria explicou que
cabe ao Palácio do Planalto decidir quando irá ocorrer.
O Contas
Abertas também entrou em contato com o governo do Maranhão, por meio da
Secretaria de Desenvolvimento Social, para saber qual a posição do órgão a
respeito do número de contemplados pelo Bolsa Família no estado e sobre os
indicadores sociais da unidade federativa. No entanto, até o fechamento da
matéria, a secretaria não se manifestou.
Maranhão
Segundo dados do IBGE, com base na Pnad
(Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2007, o Maranhão tem a segunda
maior taxa de mortalidade infantil do país. De cada mil nascidos no estado por
ano, 39 não sobreviverão ao primeiro ano de vida. Vários fatores contribuem para
o alto índice de mortalidade infantil no estado, dentre eles o fato de que
metade da população tem acesso à rede de esgoto e quase 40% não tem acesso à
água tratada.
O Maranhão também apresenta o maior percentual de
domicílios urbanos (43%) com renda per capita de até meio salário mínimo (R$
232,50). Ainda de acordo com o IBGE, o estado possui atualmente o maior número
de crianças entre oito e nove anos de idade analfabetas. Quase 40% das crianças
do estado nessa faixa etária não sabem ler e escrever, enquanto a média nacional
é de 11,5%.
Os maranhenses ainda apresentam a segunda menor expectativa
de vida entre os brasileiros: 67,6 anos. A esperança de vida média no Brasil é
de 72,7 anos. Segundo o IBGE, o estado também tem o segundo pior PIB per capita
do Brasil, atrás apenas do Piauí.
Como funciona o Bolsa
Família
O Programa Bolsa Família (PBF), desenvolvido pelo
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), é um instrumento
governamental de transferência direta de renda para famílias em situação de
pobreza ou miséria. O programa beneficia pouco mais de 11,3 milhões de famílias,
com o repasse de cerca de R$ 800 milhões mensais, conforme dados extraídos
do Orçamento Geral da União. São mais de 45 milhões de pessoas, ou seja, quase
25% da população brasileira.
O Bolsa Família, com esse nome e
formato, foi criado em outubro de 2003 para apoiar famílias mais pobres e
garantir o direito à alimentação e o acesso à educação e à saúde, por meio da
transferência de renda para acesso a serviços essenciais. O programa reúne
outras quatro ações sociais: o Bolsa Escola, o Cartão Alimentação, o Bolsa
Alimentação e o Auxílio Gás.
A execução da transferência de renda é feita
pelos municípios e cabe às prefeituras realizarem o cadastramento das famílias,
por meio do Cadastro Único dos Programas Sociais do Governo Federal, o CadÚnico.
A seleção das famílias, no entanto, é feita pelo MDS.
Os valores atuais do benefício, destinado
a famílias com renda de até R$ 137 por pessoa, variam de 20 a R$ 182, de acordo
com a renda mensal por pessoa da família e o número de crianças e adolescentes
até 17 anos. Pode ser pago por meio de três tipos de benefícios. O benefício
básico, de R$ 62, pago às famílias com renda per capita mensal de até R$ 60; o
benefício variável, de R$ 20, pago às famílias com renda mensal de até R$ 120,
desde que tenham crianças e adolescentes de até 15 anos.
Cada família
pode receber até três benefícios variáveis, ou seja, até R$ 60; e o benefício
variável vinculado ao adolescente, de R$ 30 pago a todas as famílias do PBF que
tenham adolescentes de 16 e 17 anos frequentando a escola. Cada família pode
receber até dois benefícios variáveis vinculados ao adolescente, ou seja, até R$
60,00.
Ao entrar no PBF, a família se compromete a cumprir as condições
do programa, tais como manter a freqüência escolar das crianças e adolescentes e
cumprir os cuidados básicos em saúde. A presença na escola deve atingir 85% para
crianças e adolescentes entre 6 e 15 anos e 75% para adolescentes entre 16 e 17
anos. Os pais também devem assumir a responsabilidade de manter constante
acompanhamento do estado de saúde da criança, além de prestar informação
semestralmente sobre o crescimento e desenvolvimento das crianças menores de
sete anos, pré-natal das gestantes e acompanhamento das nutrizes.
Leandro
Kleber Do Contas Abertas
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24/7/2009 |
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